Sonhos e desilusões na Hydenefossen

Se você é um escalador de gelo, a primeira coisa que vai notar ao aproximar o pequeno vilarejo de Hemsedal na Noruega, é uma imponente muralha branca que se destaca entre paredes rochosas e amplas florestas de pinheiros.


Hydenefossen é uma larga cachoeira, com cerca de 180m de altura, que deve estar na lista de todo escalador, não apenas por sua beleza mas também por ser considerada uma

benchmark em termos de dificuldades. A cachoeira recebe muito pouco sol, ape


nas algumas horas durante a manhã, e pode requerer diversas horas de aproximação, dependendo da qualidade e profundidade da neve. A força da água exige condições especiais para que ela se congele de forma a permitir sua escalada, o que apenas aumenta a sensação de privilégio e admiração que se tem ao atingir sua base.


Ao contrário de Rjukan - outro vilarejo Norueguês famoso pelas cascatas e gorges congelados, Hemsedal é mais conhecida por sua famosa estação de esqui. É comum, especialmente durante a semana, você escalar praticamente sem ver mais ninguém.


Essa era a minha quinta vez a região e desde a primeira vista eu coloquei Hydenefossen na minha lista. A cachoeira domina o panorama e a capa do guia de escaladas de Hemsedal, mas foi apenas na ano passado que comecei a me achar em forma suficiente para a paulada.


Eu e meu parceiro Lee Harisson começamos nossa aproximação no escuro, com a intenção de chegar a face assim que os primeiros raios de sol estivessem despontando no horizonte. Em Fevereiro as horas de luz ainda são muito poucas, e queríamos maximizar a quantidade de sol que teríamos para escalar.


Por conta da neve fofa e profunda nós usamos snow shows para a aproximação, aquelas raquetes que você põe no pé e permitem caminhar sem afundar na neve fofa. O problema dos snowshoes é que eles são um inferno quando o terreno fica muito inclinado ou mais congelado. Foram 2 horas de caminhada na escuridão da floresta, apenas os headlamps mostrando alguns poucos metros a frente, por entre arbustos e raízes expostas que iam enroscando nas mochilas e em nossas pernas. Finalmente a vegetação deu uma brecha e começamos a ver a ponta da cordilheira da qual a cachoeira escorre.


Logo emergimos da mata diretamente na rampa que dá acesso a base da via. Uma fina névoa cobria a metade superior da cachoeira, dificultando enxergarmos o caminho mais direto ao topo. Começamos a nos equipar enquanto o dia raiava, gotículas de água se cristalizavam no ar e com o nascer do sol a face escura foi se acendendo e ganhando uma tonalidade rosada. A medida que o sol alinhava no horizonte a cachoeira ia ficando cada vez mais branca, uma transformação tão rápida como surreal.


Nos alinhamos à face e pudermos ter uma idéia clara da linha que subiríamos, cortando diretamente o meio da cachoeira. O estômago em um misto de excitação e ansiedade, eu estava realizando um sonho a muito tempo aguardado!


A escalada em gelo envolve o uso de equipamentos metálicos pontiagudos e muito afiados. Usamos uma piqueta em cada mão, que delicadamente martelamos no gelo até sentir que elas estão mordendo e podemos confiar nosso peso, e nos pés, botas com crampons, travas similares as de um tênis de futebol mas muito mais pontudas e compridas. Diferente do tênis de trava, os crampons tem pontas na extremidade, o que permite ao escalador chutar a parede e se apoiar basicamente na ponta dos pés. Quando mais vertical a parede, mais apoio na ponta do pé é necessário. Depois de algum tempo os calcanhares começam a literalmente se encher de ácido lático por conta do esforço e o corpo começa a gritar para você se mover cada vez mais rápido.


Em uma parede de gelo o escalador está essencialmente confiando seu peso em quatro pontos de contato, a ponta das duas piquetas e a dos dois crampons. É importante manter o quadril alinhado com as piquetas de forma a manter-se em equilíbrio, e deixar o corpo o mais relaxado possível para que os calcanhares e os bíceps não se queimem antes do fim da festa.


A proteção é feita com parafusos de gelo, tubos ocos e pontudos que são rosqueados no gelo, e depois retirados pelo segundo. Uma vez colocado o tubo, o escalador que está subindo clipa um mosquetão no olho do parafuso, passa a corda e segue subindo. Caso ele caia, a corda ia parar no ponto onde foi clipado o parafuso, assumindo que o gelo seja forte o suficiente. O ideal nesse tipo de escalada é simplesmente não cair.


A via que planejávamos fazer se chama Midtlinja. A primeira cordada é a mais fácil, caracterizada por um cone de gelo que dá acesso a um pequeno platô. Eu fiz o primeiro largo e trouxe o Lee. Fizemos uma rápida transição de tralha e ele partiu para o segundo largo que envolvia contornar um teto quebradiço e navegar por estruturas complexas como estalactites e estalagmites que tem que ser testadas e removidas para facilitar a subida.


Assim que ele fez a volta no teto perdemos contato visual, os únicos sinais de progresso eram os blocos de gelo que o Lee ia mandando para o vazio conforme limpava seu caminho, e o lento movimento da corda, indicando que ele estava ganhando altura.


Foram mais de uma hora de luta até que o Lee gritasse que estava seguro e eu podia finalmente começar a segui-lo. A essa altura eu já estava tremendo de frio, esperando ansioso para me mexer e conseguir produzir um pouco de calor nas mãos e nos pés.

Diz-se de brincadeira que em escalada de gelo um está sempre com medo e o outro está sempre gelado…



O segundo trecho foi complexo e delicado, exigindo concentração e muito tempo removendo gelo e neve podre que não apresentava nenhuma segurança. Quando finalmente me juntei ao Lee eu estava consciente de que a parede estava acima das minhas condições físicas e psicológicas. Fazia mais de um ano e meio que eu não escalava gelo e apenas duas semanas atrás eu volta de quase um mês de férias no Caribe, enquanto que o Lee estava escalando literalmente todos os finais de semana desde Novembro do ano passado!



O estresse ia crescendo gradualmente no corpo e na alma. Eu tentava focar na beleza do lugar, e na nossa posição naquela parede remota. A parada que o Lee acabara de fazer era praticamente vertical, uma exposição incrível e no horizonte uma belíssima inversão térmica dividindo o horizonte. O Lee notou minha cara de incerteza e perguntou, quase que por educação se eu queria guiar o próximo largo. Eu disse que infelizmente não achava que tinha condições e ele, animado se preparou para mais uma pegada.


Nesse terceiro trecho havia ainda mais gelo podre para ser derrubado e o gelo debaixo era duro como concreto. As piquetas simplesmente ricocheteavam ao serem marteladas, e exigem diversas porradas antes de finalmente morderem o gelo.


O Lee saiu direto acima de mim e depois de alguns metros cortou para a esquerda, me colocado literalmente na linha de fogo dos blocos que caíam. O som de uma pedra de gelo passando perto da sua cabeça lembra uma flecha tirando um fina do ouvido. Zum, Zum, zum! Um bloco de gelo de um metro por um metro pesa cerca de uma tonelada. Com altura suficiente um pedaço de gelo do tamanho de uma bola de golfe já é suficiente para causar um belo estrago.


Conforme o Lee progredia, enormes blocos caíam em minha cabeça, a sensação era a de alguém martelando com toda força o meu capacete. Um grande pedaço me acertou em cheio no ombro, uma estranha onda de calor percorreu todo o meu corpo que em segundos se encharcou de suor. Eu nunca havia sentido algo assim, e gritei com o impacto. Achei que fosse desmaiar. Eu tinha certeza que havia quebrado algum osso, mas uma rápida checagem constatou que eu conseguia mexer todos os membros. Erguer o braço direito era muito dolorido. O Lee já estava no meio da cordada e gritou checando se eu estava ok. Eu apenas fiz sinal para que ele continuasse enquanto esperava meu corpo parar de pulsar. Mais outro trecho heróico de escalada e mais de uma hora de luta.


Meu corpo estava duro e gelado quando meu parceiro finalmente gritou que estava seguro e que eu podia começar a subir. Essa terceira cordada foi ainda mais difícil e inclinada que a segunda, e quando finalmente cheguei até ele, comecei a ter dúvidas se ainda tinha reservas mentais e físicas para continuar. A última cordada era um “pouco mais fácil”, mas longe de ser um passeio no parque. O sol estava quase se pondo, anunciando que iríamos escalar pela escuridão até o topo e minha animação foi do zero ao negativo. Eu me sentia agarrado, estressado, totalmente fora da minha zona de conforto e lentamente ficando desastrado por conta da exaustão.


Lee disse que estava afim de continuar mas que não tinha energia para o último largo, tentando me encorajar a seguir na frente, mas eu achei mais prudente recusar e sugeri descermos… Decepção, vergonha e frustração… sentimentos conflitantes.. Ele sugeriu de eu tentar mas após reavaliar meu estado concluiu que de fato descer seria a opção mais segura e assim, com o dia apagando, começamos a nos preparar para os rapéis.


Rapelar no gelo envolve a criação de uma ancoragem chamada abalakov. Você faz um furo diagonal na parede de gelo com um longo parafuso e depois faz um outro furo que intercepta o anterior, efetivamente criando um conduíte pela parede. O escalador então pega um fino cordelete e passa por esse conduíte, dando um nó nas pontas. A corda de escalada é então passada por dentro desse loop e a ancoragem está feita. Como backup coloca-se um parafuso acima dessa ancoragem e a ele uma costura. A corda então é passada por essa costura de forma que se o cordelete por qualquer motivo se rompa, a costura mantém a corda em posição. O primeiro escalador a descer é sempre o mais pesado, de forma que possamos testar se o gelo e o cordelete são de boa qualidade. A última pessoa a descer - eu! - e a que se compromete totalmente ao cordelete, porque ela remove o backup e faz o rappel sem nenhum plano B. “- Lembre de manter pensamentos leves”, brincou o Lee ao desaparecer na escuridão.



Foram mais de duas horas rapelando por abalakovs e por estalactites de gelo até que finalmente chegamos ao chão. Nevava levemente e estava tão escuro que conseguíamos ver apenas alguns poucos metros iluminados pelas headlamps. A neve faiscava e acendia conforme era iluminada pelas lanternas. Voltamos as mochilas e ainda tivemos mais uma hora caminhando pela floresta até encontrarmos o carro.


Alguns finais de semana depois o Lee voltou a Hydenefossen, encontrou condições bem melhores e uma linha mais direta, sem os zig-zags que fizemos na primeira visita. Quanto a mim, vou passar 2020 sonhando com a via, e torcendo para as condições alinharem novamente no próximo inverno…

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